domingo, 6 de fevereiro de 2011

Poema VIII

VIII

De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura

Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.

Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem

A enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando

-Fazedor de desgosto-
Que eu te esqueça. (Hilda Hilst)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Poema VII

VII
Foi julho sim. E nunca mais esqueço.
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Setembro em enorme silêncio
Distancia meu rosto. Te pergunto:
De julho em mim ainda te lembras?

Disseram-me os amigos que Saturno
Se refaz este ano. E é Tigre
E é verdugo. E que os amantes

Pensativos, glaciais
Ficarão surdos ao canto comovido
E em sendo assim, amor,
De que me adianta a mim, te dizer mais? (Hilda Hilst)

VII

Foi novembro sim. E nunca mais esqueço.
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Dezembro em enorme silêncio
Distancia meu rosto. Te pergunto:
De novembro em mim ainda te lembras?

Disseram-me os amigos que Mercúrio
Rege este ano. E é Coelho
E é envolto em calma. E que os amantes

Pensativos, glaciais
Ficarão atentos aos negócios mais mundanos
E em sendo assim, amor,
De que me adianta a mim, te dizer mais? (reescrito por Bau)


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Poema VI


VI
Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem (a mulher)
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?

Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste? (Hilda Hilst/ com um pitaco da Bau)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Poema V

V
Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais te ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta

E tu, lúcido, fazendo da palavra,
Inconsentido, nítido

Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro

Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro. (Hilda Hilst)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Poema IV


IV
Minha medida? Amor.
E tua boca na minha
Imerecida.

Minha vergonha? O verso
Ardente. E o meu rosto
Reverso de quem sonha.

Meu chamamento? Sagitário (Escorpião)
Ao meu lado
Enlaçado ao Touro.

Minha riqueza? Procura
Obstinada, tua presença
Em tudo: julho, agosto (novembro, dezembro)
Zodíaco antevisto, página

Ilustrada de revista
Editorial, jornal
Teia cindida.

Em cada canto da Casa
Evidência veemente
Do teu rosto. (Hilda Hilst - complementado por Bau)


Poema III

III


Se refazer o tempo a mim me fosse dado
Faria do meu rosto de parábola
Rede de mel, ofício de magia

E naquela encantada livraria
Onde os raros amigos me sorriam
Onde a meus olhos eras torre e trigo

Meu todo corajoso de Poesia
Te tomava. Aventurança, amigo,
Tão extremada e larga

E amavio contente o amor teria sido. (Hilda Hilst)

sábado, 29 de janeiro de 2011

Poema II


II
Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo sua própria tessitura.

Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas. (Hilda Hilst)




II
Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
Eu te direi que nosso tempo é ainda aurora.
Esplêndida avidez, vasta ternura
Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo seu leito de ventura.

Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. Mas de leveza,
E forte e companheira, se tu me repensas. (releitura por Bau)